O gesto, a atitude e a consagração de João Telles

Foi importante o gesto, a atitude e a vitória de quase ter enchido a praça. A encerrona de João Telles ontem em Coruche marca a sua carreira. Mas marca também esta temporada. E consagra-o como uma das maiores figuras da actualidade

Miguel Alvarenga - Havia quem não acreditasse. É normal. Há sempre um negativismo patente nas mentes desta gente dos toiros. Mas João Ribeiro Telles acreditou, arriscou, foi em frente e ontem a sua primeira grande vitória foi a enorme moldura humana que preencheu quase três quartos da Monumental de Coruche, que é só uma das maiores praças portuguesas. Quem ali estava, estava por ele.
João vestiu uma casaca diferente para lidar cada toiro. Trouxe 17 cavalos e no terceiro toiro cravou um último ferro no célebre e velhinho Ojeda, a primeira estrela da sua quadra, que todos aplaudiram quando no final o trouxe de novo à praça.
As seis lides não foram muito diferentes, mas a corrida não foi monótona e decorreu em ritmo e ambiente de triunfo. Houve particular emoção na lide do quarto toiro da tarde, da ganadaria da família, Vale de Sorraia, que João repartiu com seu tio António Telles e seu primo Manuel Telles Bastos, acabadinho de chegar da praça da Azambuja (esgotada), onde rubricara grande actuação. Os três Telles estiveram espectaculares e esta lide foi um dos momentos altos da tarde, apesar de o toiro ser meio sonso, mas eles não deixaram que isso se percebesse. Foi memorável. António e Manuel cravaram ferros incríveis, João rematou o sucesso com intervenções de muito nível artístico.
A abrir praça e depois de nas cortesias terem estado na arena todos os cavalos da sua fantástica quadra, lidou João o toiro da ganadaria Palha, com a curiosidade de ser a primeira vez que enfrentava um exemplar da centenária divisa nos seus já onze anos de alternativa.
Toiro sério e exigente, com 540 quilos, que João Telles enfrentou com brio e decisão, bonitos pormenores de brega e ferros em sortes frontais, dando logo ali o mote para o que viria a ser uma tarde de êxito.
O segundo toiro era o de Maria Guiomar Cortes Moura, com 610 quilos, de irrepreensível apresentação e presença, mas demasiado dócil e colaborante, trotando pacatamente atrás do cavalo, sem transmissão e sem dar emoção. João aproveitou a bondade do oponente para demonstrar a sua arte e a sua excelente equitação, agarrando mesmo numa muleta e dando três muletazos a cavalo na fase final da lide. Foi, das seis, a lide que contou menos.
O terceiro toiro era o de Murteira Grave, com 500 quilos. E se os homens não se medem aos palmos, os toiros também não se devem medir pelos quilos. Este era o toiro mais pequeno, mas foi dos melhores da corrida. João foi esperá-lo à porta da gaiola e aguentou firme, sob calorosos aplausos, a carga tremenda do Grave numa volta completa à praça. Era um toiro que exigia, que pedia contas, que não deixava tranquilo nenhum toureiro. João Telles deu-lhe a lide adequada, impondo-se com ferros de grande emoção e cuidada brega, numa lide que foi em crescendo.
Depois de um breve intervalo em que foi à arena receber uma lembrança dos dois dinâmicos empresários da praça alusiva a esta efeméride de ali se encerrar com seis toiros, havendo também a registar a entrega de uma lembrança do cabo dos Forcados de Coruche, José Macedo Tomás, ao cabo do Grupo de Montemor, António Vacas de Carvalho, pelo 80º aniversário da fundação deste grupo, iniciou-se a segunda parte da corrida com a lide do toiro de Vale de Sorraia com 545 quilos. Um toiro bonito, aplaudido mal entrou, mas que depois se revelou algo reservado e sonso ao longo da lide. Mas ninguém deu por isso, tal a apoteose de lide a três dos Ribeiro Telles.
O primeiro ferro comprido de João Telles foi passado, o segundo já foi bom e depois a lide prosseguiu em clima de grande apoteose e com o brilhantismo também do Maestro António e de Manuel Telles Bastos, que está a protagonizar uma grande temporada. Foi, como disse atrás, um dos momentos altos e de maior emoção da corrida. Terminou com a volta à arena de todos os Telles com os campinos "Café" e "Janica" e o forcado Fábio Casinhas, de Coruche.
O quinto toiro era o da ganadaria Passanha (580 quilos), um toiro bonito e que deu luta, com o qual João Telles esteve apenas razoável, sem atingir o brilhantismo das outras lides, apesar de ter cravado dois curtos muito bons. O cavaleiro reconheceu isso mesmo e esta foi a única actuação em que recusou no final dar a volta à arena.
Foi no último toiro da corrida, da ganadaria também da casa, de David Ribeiro Telles, com 605 quilos, lide brindada a seu pai, que João Ribeiro Telles finalmente explodiu e galvanizou o público, levantando-o das bancadas com os três últimos curtos, de uma emoção tremenda, cravados em terrenos de alto compromisso, com batida ao piton contrário, ferros daqueles que se não esquecem. O público, em total euforia, pediu mais um ferro, mas João deu, inteligentemente, por terminada, em ambiente de glória, esta sua histórica jornada de consagração.
Esteve acompanhado por seis magníficos bandarilheiros, aos quais é de inteira justiça aplaudir todas as intervenções, não apenas a receber os toiros (sem capotazos excessivos, tudo com conta, peso, medida e muita arte), mas como depois a colocá-los para os forcados. Honra e aplausos para João Ribeiro "Curro", António Telles Bastos, Nuno Oliveira, Duarte Alegrete, João Curto e Francisco Marques.
O Grupo de Montemor teve uma tarde de triunfo e também de consagração, com duas enormes pegas de João da Câmara (primeira) e Francisco Maria Borges (quinta) e outra, também dura e rija, de Vasco Ponce (terceira), como já aqui se referiu e retratou em pormenor. Muito bem, como sempre, o grupo a ajudar. Nisso, os montemorenses marcam sempre a diferença e ontem esse importante pormenor não foi excepção.
Os Amadores de Coruche não estiveram brilhantes, antes pelo contrário, nas ajudas ao grande forcado João Ferreira Prates na pega do segundo toiro (o "toirão" de Guiomar Moura, que sem fazer mal, tinha a força de um comboio TGV em alta velocidade...). Prates aguentou até às últimas, mas acabou por sair da cara do toiro sem qualquer companheiro a ajudá-lo. Na segunda tentativa, as ajudas já não falharam e a pega foi consumada. Fábio Casinhas e António Tomás executaram, ambos à primeira, as pegas seguintes do grupo da casa, que resultaram emotivas e onde os ajudas já tiveram notáveis e decisivas intervenções.
Foi ontem Agostinho Borges o director de corrida, exercendo a sua função com a usual competência e sem absolutamente nada a apontar. Esteve assessorado pelo médico veterinário Dr. Feliciano Reis e pelo cornetim José Henriques.
Em jeito de balanço final, há que reconhecer, por inteira e merecida justiça, que foi bonito, foi importante e foi triunfal o gesto de João Ribeiro Telles, após dez anos de alternativa, de se encerrar com seis toiros e provar, a si próprio e ao público, que atingiu por seu mérito próprio o patamar da frente.
Havia os que consideravam que não era esta a altura de o fazer. Eu acho que foi precisamente o momento certo.
João Telles consagrou-se com uma das grandes figuras da nova geração. Confirmou ontem um estatuto que o coloca na linha da frente, entre os melhores. E, tão importante - ou mais - que o resto, provou que tem milhares de adeptos e um público que o segue. Por muito bem que estivesse - e todos sabiam que ia estar, e esteve - teria tido uma grande derrota se não tivesse levado gente à praça. Levou. Coruche teve ontem a moldura humana habitual da sua data forte de 17 de Agosto. E quem lá foi, repito, foi para ver o João. No final, os primos levaram-no em ombros.
Não quero terminar esta crónica sem lhe enviar o maior dos abraços e o felicitar pela ousadia que teve ontem de aos costumes dizer nada. E dizer tudo. Tudo mesmo. E de aqui felicitar também o meu querido e velho amigo João Palha Ribeiro Telles, ainda a convalescer de uma delicada operação ao coração, que ontem reapareceu em público e daquela praça saíu mais feliz que nunca.